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Inquietação Interminável
João Lobo Antunes

Editora: Gradiva

Sinopse

A publicação destes catorze ensaios agora cerzidos num único volume, retocados aqui e ali no estilo e na substância, não tem outra pretensão, insisto, do que tornar mais acessíveis textos até agora dispersos e, quem sabe, fazer acordar no leitor as mesmas inquietações que os inspiraram.

Não há, bem sei, um fio condutor a uni-los, nem se arrumam segundo um programa temático. Falam da vida, da morte, da velhice, do sofrimento, da dignidade, da compaixão, do interesse, dos mistérios do cérebro, do dever e da renúncia, enfim, desta "umana cosa" que é ser médico, e sobre os sentimentos sentidos e observados neste ofício e o que fui buscar ao meu "conhecimento das vidas", como dizia Fernando Gil, cuja esplendorosa sabedoria foi uma dádiva inesperada na minha idade madura. Aqui está contido, pois, um pouco daquilo que fui aprendendo, sobretudo com aqueles de quem cuidei e cuja alma se ofereceu tantas vezes, tão frágil, tão inocente, tão nua.

João Lobo Antunes



"A ética, que nos ajuda a esforçarmo-nos por viver a vida boa de Aristóteles e Ricoeur, está presente em todos e cada um dos ensaios aqui
reunidos e é tratada sob a mais nobre das formas de a encarar, que é a do debate baseado na escuta exigente da fundamentação lógica dos argumentos, almejando a razoabilidade, e informado pelo respeito pelas convicções e razões dos que pensam diferentemente. Mesmo quando se não concorde com João Lobo Antunes (e algumas vezes tal acontece, felizmente, comigo) não se pode deixar de saudar este formidável argumentador, este expositor sério e comprometido de valores e virtudes, renitente a aceitar princípios esquematizantes e só aparentemente orientadores da atitude certa e do procedimento correcto. A sua experiência como médico, a observação aguda da complexidade emocional-racional do ser humano, particularmente quando se declara ou assume como doente, conduzem-no por vezes a confessar-se incapaz de optar em situações dilemáticas e angustiantes, aquelas situações de vida ou morte em que só a recta intenção e a consciência sondada até ao âmago podem servir de decisor.

Por outro lado, este é um livro autobiográfico, na medida em que não só são relatadas situações vividas como se patenteia, nú e descarnado, o homem, sem nunca se ofender o natural pudor de quem recusa qualquer exibição. (...)

Carece-me autoridade para emitir juízos acerca da qualidade literária destes escritos. Como leitor crónico, dependente de livros, posso todavia dizer que é raro encontrar quem alie, como o Autor, a elegância formal a uma análise rigorosa, a riqueza das metáforas e imagens a uma enxuta e cristalina exposição de teses. Não é, certamente, deslustre para a ínclita geração dos Lobo Antunes, que conta entre os seus representantes três médicos escritores, este opus admirável. Basta ler "A história de um velho" para se concluir que este realista, compassivo e rigoroso retrato da decadência orgânica e da coragem fiel do ocaso de uma vida garante uma duradoura presença na grande prosa portuguesa."

Walter Osswald
in
Prefácio

 

 

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